Campanha salarial junto com eleições exige postura forte dos bancários
Empregado da Caixa Econômica Federal há mais de 20 anos, o bancário Fernando Neiva, ex-presidente do Sindicato dos Bancários de
Belo Horizonte, faz uma análise da campanha salarial e a conjuntura das eleições de 2010. Em entrevista ao Momento Bancário. Neiva aposta na mobilização da categoria e aponta como necessidade a eleição de candidatos capazes de representar os trabalhadores com competência e compromisso na defesa de seus interesses. Fernando Neiva é economista graduado pela PUC-MG, pós-graduado em Gestão Empresarial pela UFRJ e em Políticas Públicas pelo Departamento de Ciências Políticas da UFMG.residiu o Sindicato de BH em três gestões de 1999 a 2008.Atualmente é diretor do Departamento Jurídico e membro da direção Nacional da Central Única dos trabalhadores (CUT).
JORNAL DO BANCÁRIO- Quais as perspectivas para a Campanha Salarial dos bancários de 2010?
Fernando Neiva - Os bancários precisam ter consciência que mesmo os bancos apresentando altíssimos lucros nada virá de graça. É a nossa organização que irá forçar os banqueiros e governo federal a apresentar propostas que atendam as justas reivindicações da categoria.A participação dos bancários é fundamental em todos os momentos – Congressos, encontros, assembleias, para que organizados possamos garantir e ampliar os nossos acordos coletivos. É importante lembrar que os últimos sete anos, com as greves cada vez mais organizadas e fortes, a categoria conseguiu pressionar os banqueiros e o governo federal trazendo importantes conquistas como: o fim do reajuste zero com aumento real, a cesta alimentação e décima terceira cesta, melhoramos a a Participação nos Lucros e resultados com a distribuição maior e mais justa, o auxílio educação, a igualdade de oportunidade, mais segurança dentro das agências bancárias, mais contratações principalmente na Caixa e no BB e avanços dos direitos dos novos bancários de Caixa e do BB.
JORNAL DO BANCÁRIO- A campanha salarial deste ano combina com as eleições do dia 3 de outubro. Qual a importância desse momento para os trabalhadores e a categoria bancária?
Fernando Neiva - Está em jogo a disputa de projetos distintos, que os bancários precisam estar atentos. De um lado a continuidade do projeto democrático popular iniciado pelo governo Lula e representado pela candidatura da Dilma Roussef (PT) e do outro a volta do projeto neoliberal, antipopular e privatizante do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC), representado pelo candidato José Serra (PSDB). Daí o caráter plebiscitário dessas eleições que colocam de um lado o que foi o governo de FHC e o que vem sendo o governo do Lula para o Brasil e para os brasileiros, principalmente para os mais pobres. Todos se lembram que durante o governo de FHC o Brasil quebrou duas vezes e adotou taxas de juros de 45% a.a. gerando o crescimento mais pífio de toda a história do país. Foi ainda na era tucana que a dívida pública saltou de R$ 67 bilhões para cerca de R$ 670 bilhões, ou seja, de 23% para 58% do PIB, mesmo com a brutal elevação da carga tributária de 26% para 35% do PIB. Onde estão os R$ 87 bilhões obtidos com a privatização das 133 empresas entregues a preço de banana entre 1997 a 2002? Os trabalhadores resistiram, mas não conseguiram que a sanha privatista entregasse a CSN, Vale do Rio Doce, e os tradicionais bancos estaduais mineiros Bemge e Credireal, dentre outras. A política do então presidente FHC tentou impedir a livre organização dos trabalhadores atacou direitos conquistados, flexibilizou o tempo de trabalho com a criação do banco de horas, implementou o trabalho aos domingos e o salário mínimo no valor de 78 dólares era dos menores da história do Brasil. Se não bastasse tudo isso, enviou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei N 5483, que alterava drasticamente o art. 618 da CLT.
JORNAL DOS BANCÁRIOS- E os bancos públicos...?
Fernando Neiva -No que diz respeito aos bancos públicos, o governo FHC promoveu o desmonte das principais instituições financeiras públicas do país, como a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, o BNB, o Basa e o BNDES. Atacou também o que restou do patrimônio público nacional, como a Petrobras e os Correios, preparando-os para a privatização. Os trabalhadores dessas empresas públicas ficaram oito anos sem qualquer tipo de reajuste salarial. Além disso, os atos autoritários contra os trabalhadores destas instituições eram constantes. Na Caixa Econômica Federal, a direção do bancoinstituiua RH 008, que demitia os trabalhadores sem qualquer motivo .A retirada de direitos era constante, como o décimo terceiro tíquete alimentação, a licença-prêmio, apips, o adicional portempo de serviço. Além disso, oassédio moral era insuportável. O desrespeito da direção do banco era tanto que em 2001 a pauta de reivindicações teve que ser entregue a um vigilante na portaria da Matriz da Caixa porque os dirigentes da empresa se recusaram a receber os representantes dos empregados. A perseguição aos trabalhadores também era grave no Banco do Brasil com a implementação de uma política coerciva e demissões sumárias, juntamente com o assédio moral explícito e covarde. Entre 1995 e 2002, foi introduzida uma série de mudanças administrativas drásticas no banco em relação a sua política de Recursos Humanos, o que resultou na demissão de 43 mil bancários durante este período. A pressão foi tão grande que causou uma onda de suicídios de funcionários do Banco do Brasil pelo país. De 1995 a 1996 vinte funcionários do BB se mataram em decorrência da pressão exercida pela política devastadora do governo FHC.
JORNAL DOS BANCÁRIOS- Qual a sua leitura pessoal dessa disputa?
Fernando Neiva -A oposição não quer a comparação com o governo Lula porque sabe que sai perdendo em praticamente todos o itens abordados. No plano interno, o governo Lula promoveu uma das maiores distribuição de rendas do Brasil. O salário mínimo atingiu 210 dólares,foram gerados mais de 11 milhões de empregos formais e 20 milhões de brasileiros saíram da linha de pobreza. O programa Bolsa família atende milhões de brasileiros alimentando o mercado interno e garantindo melhor qualidade de vida à população de baixa renda. As empresas públicas foram valorizadas e fortalecidas na sua função social. O exemplo recente foi o papel exercido pela Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e BNDES durante a crise internacional. E não podemos nos esquecer que foi durante o período do governo Lula que os trabalhadores voltaram a se organizar, com mobilizações históricas, realizando várias greves vitoriosas e ampliando os seus direitos nos acordos coletivos. Além disso, foram criadas10 novas universidades, 45 extensões universitárias e 214 escolas técnicas. No plano externo, o governo Lula quitou a dívida com o Fundo Monetário Internacional e as reservas internacionais batem recorde acumulando 160 bilhões de dólares positivos. O país foi projetado internacionalmente como nunca e não é à toa que opresidente Lula hoje é considerado uma das personalidades mais influentes do mundo e sua aprovação chega a números recordes. Por isso tudo defendo que devemos eleger o candidato ou a candidata que vai dar continuidade a esse projeto. E não é só isso. Para fortalecer ainda mais esse projeto,temos queeleger candidatos e candidatas capazes de representar os trabalhadores com competência e que estejam compromissados com a defesa de seusinteresses no Congresso Nacional. Como bancário que participa daluta da categoria eu acredito na força do trabalhador bancário e na capacidade de escolher o que é melhor para o Brasil e para os trabalhadores brasileiros.
JORNAL DOS BANCÁRIOS- Como está o quadro sucessório em Minas Gerais?
Fernando Neiva -Minas é um dos principais estados do Brasil em todos os quesitos. Somos o segundo maior colégio eleitoral do Brasil e a eleição nacional passa necessariamente por aqui. Na base do governo Lula tivemos a definição pela candidatura de Hélio Costa (PMDB). Na outra ponta temos a candidatura do governador Anastasia. É importante que o eleitor de Minas não seja enganado pelo canto da sereia. Os sete anos e quatro meses do governo Aécio/Anastasia pode ter construído um Centro Administrativo milionário, um choque de gestão zero, e outros pontos que eles propagandeiam pelos quatro cantos de Minas Gerais. Mas por trás de tudo isso está uma gestão que traz a mesma marca do governo Fernando Henrique. Um governo que tem um forte apelo e domínio de toda imprensa mineira. Algum jornal falou mal do governo de Minas ao longo desses anos? Os poucos jornalistas que criticaram o governo foram sumariamente demitidos, como foi o caso do jornalista da rede Bandeirante, Jorge Cajuru. O governo de Minas não paga a dívida com a União e o déficit cresce a cada ano. Hoje a dívida interna de Minas gira em torno de R$ 55 bilhões. Os ataques ao movimento social e sindical são sua marca. O último exemplo foi a radicalização contra a justa greve dos professores queduroumais de 40 dias reivindicando salário justo, já que hoje o salário dos professores mineiros é um dos mais baixos do país: R$369,00. Apesar de a intransigência do governo Anastasiaterprejudicadomais de 2,5milhões de alunos, a maioria deles carentes, o movimento serviu para denunciar para o povo mineiro a verdadeira face do governo Aécio Neves/Anastasia. Mudar o governo em Minas Gerais é garantir que as políticas sociais implementadas pelo Governo Lula no país também cheguem de fato a Minas Gerais.
JORNAL DOS BANCÁRIOS- Quais as perspectivas dos projetos da classe trabalhadora: reajuste maior para aposentados, fim do fator previdenciário e redução da jornada de trabalho?
Fernando Neiva -Apesar de a nossa categoria bancária possuir uma jornada de trabalho de 30 horas semanais, no Brasil em geral a jornada de trabalho é muita extensa e é uma das maiores do mundo: 44 horas semanais desde 1988. A reivindicação da CUT é de 40 horas semanais porque preserva e cria novos empregos,sendo um dos instrumentos para a geração de novos postos de trabalho e a conseqüente redução das altas taxas de desemprego. Se todos trabalharem um pouco menos, sem redução de salarial, mais pessoas poderão trabalhar. O Brasil precisa aprovar essa redução. O governo Lula acertou na valorização do salário mínimo, mas os que estão ganhando acima do salário mínimo devem ter uma política também de valorização de suas aposentadorias. O recente reajuste de 7,71% aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado foi mais do que acertado.Os aposentados devem continuar pressionando por mais essa justa conquista, poisdedicaram boa parte de sua vida trabalhando por um país decente e digno. O fator previdenciário é outra medida perversa que afeta todos os trabalhadores e ele deve ser eliminado. Afeta o benefício dos trabalhadores que se aposentam por tempo de contribuiçãoe penaliza especialmente aqueles trabalhadores que começaram a contribuir desde cedo com a Previdência Social.